O Bê-a-bá do Sertão - Paraíba - Estrada que liga Manaus a resto do país ameaça abrir uma Alemanha na mata
Meio Ambiente 09.09.2018 - Projeto Amazônia:

Estrada que liga Manaus a resto do país ameaça abrir uma Alemanha na mata

     
Compartilhe

Estrada que liga Manaus a resto do país ameaça abrir uma Alemanha na mataLote com área desmatada para pasto, as margens da rodovia BR-319


BR-319 - Asfaltar ou não asfaltar?. A radiografia dos planos em curso e seus obstáculos para lidar com os principais problemas da Amazônia: acesso, desenvolvimento, exploração, preservação e direito à terra.


BR-319(AM/RO) A poeirenta Realidade(AM) segue o ciclo de exploração descontrolada de madeira, que abre espaço para a grilagem e o desmatamento ilegal que precede a pecuária extensiva. A diferença é que a vila fica às margens da BR-319, que, se asfaltada, pode espalhar esse modelo de ocupação caótica a uma área da floresta maior que a Alemanha.



Inaugurada em 1976, a BR-319 tem quase 900 km e é a única ligação rodoviária de Manaus ao resto do país, via Porto Velho(RO). Contra a praxe, foi entregue asfaltada, mas a falta de manutenção fez com que perdesse o pavimento até ficar intransitável, em 1988.


Desde 1996, a rodovia voltou ao radar do governo. Desde então, o reasfaltamento de trechos próximos às capitais e as obras de manutenção têm melhorado a trafegabilidade e aumentado o fluxo de veículos, que levam pessoas e mercadorias, mas a falta de licença ambiental vem impedindo a pavimentação do chamado "trecho do meio", de 406 km.



Há muito debate em torno dessa licença. O principal entrave para que o Ibama(Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) não a emita é a baixa presença do Estado na região da BR-319, cujo asfaltamento viabilizaria também a abertura de quatro estradas estaduais projetadas.


A maior delas, AM-366, de 578 km, corta um parque nacional e terras indígenas. Ao todo, a área de influência da BR-319 equivale aos territórios da Alemanha e Holanda juntos, segundo estudo do Idesam(Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia).



A ausência do Estado piorou em outubro do ano passado, quando garimpeiros incendiaram os escritórios do Ibama e do ICMBio(Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) em Humaitá(AM), município ao qual a vila de Realidade pertence.


A BR-319 é uma enorme ameaça à floresta porque abre a metade que sobrou da Amazônia brasileira à entrada de desmatadores, diz o ecólogo norte-americano Philip Fearnside, do Inpa(Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), com sede em Manaus.



A estrada conecta o Arco do Desmatamento(sul do Amazonas e Rondônia) com Manaus, que tem uma rede de estradas até Roraima, por onde podem sair os migrantes, diz Fearnside, ganhador do Nobel da Paz de 2007 com outros cientistas do IPCC, o painel de clima da ONU, pelos alertas para o aquecimento global.



A melhoria de condições da estrada nos últimos anos já incentivou o crescimento de Realidade, que começou como assentamento do Incra e hoje tem cerca de 7.000 pessoas, boa parte vinda de Rondônia.



O estudo do Idesam sobre os impactos socioambientais da BR-319 mostra que, nos últimos oito anos, 305 km de ramais(estradas vicinais) foram abertos em torno de Realidade, principalmente por madeireiros. Apenas de 2016 ao ano passado, o total da área desmatada ali aumentou 17%.





As ocupações são muito mais rápidas do que a presença dos governos nessas áreas, diz a pesquisadora Fernanda Meirelles, coordenadora de políticas públicas do Idesam. 
Segundo ela, a criação de unidades de conservação ao longo da BR-319 para mitigar os impactos não basta para manter a floresta preservada.


Elas são muito importantes e atuam como barreira de desmatamento, mas já verificamos, em algumas unidades, ramais abertos. Quanto mais perto está de assentamentos e concentrações urbanas, mais vulneráveis estão, diz.



Moradores novos e antigos
Percorrendo a rodovia de Manaus a Porto Velho por três dias, de moradores atraídos à região nos anos 1970 a caminhoneiros atolados, todos apoiam o asfaltamento.


Em Realidade(a 600 km de Manaus e 290 km de Porto Velho) desde 2005, Valtair de Freitas, 58, é um dos migrantes atraídos por terras baratas e a perspectiva de pavimentação. Nascido no Paraná, foi jovem com os pais para Rondônia antes de subir para o Amazonas em busca de mais espaço pra criar a família.


Na região, Freitas cria gado de corte e leiteiro e explora madeira. Ele explica que ainda não conseguiu legalizar suas terras e que possui uma licença de manejo floresta expedida pelo governo estadual. 
Freitas diz que, para viver bem, uma família precisa de mil cabeças de gado em mil hectares de pastagem. A gente vem de fora e tem o pensamento só na criação de gado.


O pecuarista diz ser possível viver na região em áreas de dez hectares, desde que o governo incentive a diversificação com agricultura e criação de peixes. Com o asfaltamento, afirma, a produção terá mercado em Manaus e seus 2,1 milhões de habitantes.


Viagem mais curta
Fora da estrada, a pressão para asfaltar vem sobretudo de lideranças políticas e empresários do Amazonas e de Rondônia, incluindo a Rede Amazônica, afiliada da Rede Globo. O principal argumento é o barateamento do frete até Manaus, onde as mercadorias escoam principalmente pela via fluvial - a conexão com Rondônia é pelo rio Madeira.


O fluvial é em geral mais barato, mas bem mais demorado, 12 horas contra cinco dias. Além disso, durante em três meses do ano a passagem para Porto Velho fica quase bloqueada e, portanto, demora mais e fica bem mais cara, afirma Denis Minev, diretor financeiro da Bemol, uma cadeia de lojas de departamento da Amazônia, com sede em Manaus.



Fora isso, o transbordo em logística encarece. Para Porto Velho fica mais barato, mas não para o resto do país, acrescentou.


Hoje, o tempo de viagem é imprevisível por causa dos atoleiros. No período de chuvas(dezembro a maio), sobram relatos de caminhões e ônibus que levam até sete dias para completar o percurso entre as duas capitais.


Secretário-geral da Associação dos Amigos e Defensores da BR-319, o geógrafo Thiago Neto admite que falta governança para coibir o desmatamento, mas vê condições para que a BR-319 ser asfaltada sem repetir más experiências em outras rodovias da Amazônia.



Pra fazer diferente, tem de ter atuação do Estado nas unidades de conservação, na fiscalização, afirma o geógrafo. 
Procurado há cerca de um mês, o Dnit(Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) não respondeu ao pedido de esclarecimento sobre o atraso na conclusão dos estudos de impacto ambiental para a pavimentação.


Moderador de um fórum sobre a BR-319, com a participação de órgãos governamentais e da sociedade civil, o procurador da República Rafael Rocha afirma que o debate parte da premissa de que a rodovia será asfaltada em breve.



Uns são mais comprometidos com a pavimentação e menos com a sustentabilidade, e outros, mais com a sustentabilidade e menos com a pavimentação, diz Rocha.



O próximo passo, mais importante, é tentar estabelecer os pactos de governança. Senão, nem precisa exercer futurologia. Basta ver o que aconteceu na Santarém-Cuiabá, um dos maiores focos de desmatamento da Amazônia.

                       

Deixe o seu comentário







Respeitamos o direito de opinão e expressão. O espaço para comentários é um espaço democrático destinado às opiniões relativas ao texto originalmente publicado.
Não serão publicadas quaisquer mensagens com conteúdo calunioso, difamatório, injurioso, racista, de incitação à violência ou a qualquer ilegalidade, ou, ainda, que desrespeitem a privacidade alheia, que tenham caráter preconceituoso ou discriminatório a pessoa ou grupo de pessoas, ou, ainda, que tenham linguagem grosseira e/ou obscena.
Não serão publicados comentários que tentam se aproveitar deste espaço democrático para “destacar” outros sítios ou blogues ou, ainda, que tenham por objetivo comercializar produtos ou serviços.
Comentários anônimos, desconexos ou sem sentido em relação ao tema comentado também serão descartados.




Copyright © 2002/2018 - O Bê-á-bá do Sertão - Todos os direitos reservados
Contatos: (0xx83) 99967.1500 - Paraíba - Brasil
E-mail para contatocomercial@obeabadosertao.com.br