O Bê-a-bá do Sertão - Paraíba - A TEOLOGIA LATINA AMERICANA
Ignácio Tavares Ignácio Tavares de Araújo é graduado em Economia com especialização em Planejamento e Pesquisa Sócio-Econômica. Professor da disciplina "Micro Economia" do Departamento de Economia da UFPB e Economista aposentado da Secretaria Estadual de Planejamento do Estado da Paraíba.


23.12.2014 - João Pessoa

A TEOLOGIA LATINA AMERICANA

     
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A partir do Concilio Vaticano II, o mundo passou a ver a Igreja de Jesus Cristo com outro olhar. Os mais renomados Teólogos da época foram os donos da festa. Se bem pensar, a Teologia do Vaticano II, em termos doutrinários, há séculos se estriba nas mesmas reflexões sem apresentar nada de novo. Mas, depois do histórico Concilio despontou uma nova reflexão teológica de inspiração Latino-americana, que chamou atenção do mundo inteiro. Refiro-me a Teologia da Libertação.


Em 1971, pela primeira vez ouviu-se falar sobre a expressão ¨Teologia da Libertação¨ cunhada pelo padre Gustavo Gutierrez. Esta Teologia trouxe para o centro das discussões - no âmbito da Igreja - a questão da pobreza frente a Fé Cristã, com destaque para os estratos inferiores de renda denominados “excluídos”. Por muito tempo houve ume interpretação enviesada da opção de Jesus pelos pobres conforme os exegetas dos Evangelhos de Marcos, Matheus, Lucas e João, ao longo dos quase dois mil anos.


A preferência de Jesus pelos pobres tornou-se lugar comum a ideia de que é a pobreza que leva o homem ao Reino do Céu, nesse caso valia a pena ser pobre. Ressalte-se que no tempo de Jesus, os pobres eram a grande maioria em toda região galileia, da Judeia. Acredita-se que o contingente de pobres passava dos 90% da população.


Os ricos eram os romanos, os sacerdotes, a maioria dos fariseus, anciões, saduceus, escribas, cobradores de impostos, entre outros. Naquela época o Estado, tal qual como é hoje, instituição centralizadora, com as funções específicas de preservar a segurança, oferecer serviços de educação, saúde, bem como, outros serviços necessários ao bem-estar da população, ainda não havia sido concebido. O estado era Roma, com sua ganância insaciável, como cobradora de impostos nas áreas conquistadas, através do regime da espada, lanças e cascos de cavalos.


Os romanos ditavam as ordens aos sumos sacerdotes que por sua vez repassavam pra a população. O imposto era uma obrigação de todos que habitavam a região, mesmo para aqueles que não tivessem uma fonte de renda. O cobrador de imposto era uma figura abjeta odiada por toda população, em razão das práticas usadas nas coletas do dia a dia.


Qualquer ricaço podia ser um cobrador de imposto. Bastava comprar o direito de cobrança de determinada região, quase sempre densamente povoada, para conquistar o status de cobrador de impostos. Assim sendo podia estabelecer penas, escravizar, todo aquele que se negasse ou não pudesse pagar o imposto devido. Por isso o cobrador de imposto era visto pela sociedade como uma figura odiada, subserviente, a serviço do império romano.



Em razão disso, quem mais sofria eram os mais pobres, que representavam a grande maioria em toda comunidade judaica. Jesus posicionou-se em defesa da sofrida classe menos favorecida. Isso mesmo, a sua opção, diante do quadro de sofrimento observado, foi pelos mais pobres. Este foi o alvo escolhido para levar a Suas mensagens de vida plena de justiça social, de libertação, de Fé, amor e esperança, esta sim, a verdadeira condição necessária para alcançar o Reino de Deus.


Inspirados nessa mensagem libertadora de Jesus Cristos os jovens Teólogos latino-americanos fizeram uma revisão na Teologia clássica europeia, através de instrumentos de analises- até então nunca imaginados pelos Teólogos Clássicos - que os levaram entender e melhor explicar as razões da pobreza num cenário de Fé Cristã. Refiro-me a dialética, método - ou mesmo ciência, como querem alguns estudiosos do assunto - que permite entender a dinâmica das contradições das lutas de classes ao longo da história.


A concepção da Teologia da Libertação definida pelos seus proponentes fundamenta-se em “uma reinterpretação analítica e antropológica da Fé Cristã, tendo em vista os problemas sociais”. Com base nessa nova forma de observar a Fé Cristã, a nova teologia tornou-se um movimente internacional, pois despertou interesse de outras crenças orientais e ocidentais, além dos católicos, como o espiritismo, islamismo, xamanismo e até de algumas denominações evangélicas.


É claro que os teólogos que seguem a doutrina da teologia clássica europeia se opuseram e ainda se opõem a essa nova doutrina teológica por razões políticas e não doutrinarias. Alegam que o método usado para fundamentar a Teologia da Libertação, a dialética, é de inspiração marxista, portanto, não é bem adequado para analisar e explicar a dinâmica da Fé Cristão.


É tanto que a Congregação para a Doutrina da Fé, em 1984 manifestou a sua preocupação com a avanço da Teologia da Libertação nos seminários da América Latina. Hoje a reação não é tão forte o quanto fora tempos atrás, até porque o Papa Francisco, ao se referir a Teologia da Libertação mostrou-se simpático aos seus fundamentos, assim como a sua mensagem, que pode reacender a esperança de aproximar cada vez mais a Igreja das camadas menos favorecidas.


Em síntese a Teologia da Libertação leva o cristão a entender que o seu Céu começa aqui. Com efeito, para ser feliz no Reino de Deus, necessariamente tem que ser feliz aqui na terra. Não é a infelicidade, a pobreza que leva o homem a Deus e sim a sua libertação da pobreza, bem como dos velhos conceitos históricos adotados pelo magistério evangelizador fundamentado na ideia de que é através do caminho da pobreza que se chega ao Reino de Deus.

Valeu...



João Pessoa(PB), 23 de Dezembro de 2014.


Ignácio Tavares





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