O Bê-a-bá do Sertão - Paraíba - NO TEMPO DAS CAVALHADAS
Ignácio Tavares Ignácio Tavares de Araújo é graduado em Economia com especialização em Planejamento e Pesquisa Sócio-Econômica. Professor da disciplina "Micro Economia" do Departamento de Economia da UFPB e Economista aposentado da Secretaria Estadual de Planejamento do Estado da Paraíba.


25.11.2014 - João Pessoa

NO TEMPO DAS CAVALHADAS

     
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Por acaso vocês já ouviram falar no verdadeiro significado de as Cavalhadas? Alias existe aqui no município um sitio conhecido pelo nome de “As Cavalhadas”. A que se deve tão estranha homenagem? Com certeza devia ser um proprietário adepto do referido folguedo em épocas passadas.


Em Pombal as Cavalhadas há muito deixaram de existir como diversão esportiva do homem do campo e como manifestação religiosa em homenagem ao Divino Espírito Santo. Com certeza essa prática esportiva/religiosa não só desapareceu do nosso calendário esportivo, como também da memória das gerações presentes, posto que, os praticantes desse esporte já não estão mais aqui entre nós.


Pois é, dos anos quarenta ao início dos anos cinquenta os moradores da zona rural deslocavam-se pra cidade a fim de mostrar a habilidade dos seus cavaleiros na prática das Cavalhadas. O que são as Cavalhadas? Trata-se de um folguedo que faz parte das comemorações em homenagem ao Divino Espirito Santo, ainda hoje festejado com muita pompa no Centro Oeste e no Estado de Minas Gerais, entre outros estados do centro sul.


Na realidade, o folguedo teatraliza a história da luta entre os Cristãos, liderados por Carlos Magno, contra os Mouros que invadiram a Península Ibérica. A sua prática no nosso meio, são reminiscências cultural/religioso da idade média, que em 1451 foi encenada em Portugal, nas festas de despedida da Princesa Leonor ao casar-se com o rei romano Frederico III. Este acontecimento foi divulgado no Brasil no século XVIII, com demonstrações de rituais aprovados pela Igreja, daquela época, até hoje.


É isso mesmo, a Cavalhada é um folguedo tipicamente medieval. Na época da exibição desse esporte aqui em Pombal, os cavaleiros - todos vestidos a caráter - desfilavam pelas ruas centrais da cidade, com os animais paramentados com tecidos multicores. Eram dois grupos - um representava os Cristãos, outro representava os Mouros. Havia a encenação de uma batalha, sempre com a vitória dos Cristãos.


O segundo momento do folguedo fundamentava-se numa disputa para ver quem era mais habilidoso na arte da montaria, em alta velocidade, a fim de lancear a argolinha exposta entre duas traves de madeira, pendurada numa corda, da qual descia uma pequena extensão onde se localizava a argola. Neste caso vencia o melhor, seja Cristão ou Mouro.


A pista de corrida ficava na rua nova. A argolinha ficava na lateral da Igreja do Rosário, próxima a coluna da hora. Quem conseguisse lancear a argolinha mais vezes, seria o vencedor. Nesse tempo as ruas eram de chão batido, o que facilitava o trote dos animais. Entre os mais famosos lanceadores de argolas destacavam-se os filhos de Antônio Bezerra, os Adonias, entre outros.


A cidade se engalanava para este momento. Os dois lados da rua ficavam repletos de torcedores. Uns torciam pelos Cristãos outros pelos Mouros. No fim da disputa era declarado campeão o grupo de cavaleiros que mais vezes conseguissem lancear a argola. Os dois grupos, novamente desfilavam pelas ruas da cidade, conduzindo suas respectivas bandeiras, depois iam agradecer ao Divino Espírito Santo, pela vitória dos Cristãos sobre os Mouros, ou vice-versa.


Tudo isso aconteceu em Pombal dos anos quarenta e início dos anos cinquenta. Acabou-se. Mais nada existe, nem mesmo na lembrança do povo. Dos folguedos herdados do nosso passado colonial apenas três resistem à ação do tempo: os pontões, o reisado e os congos.


Não sei dizer se essas tres manifestações culturais são de inspiração estritamente colonial portuguesa, ou uma versão modificada do povo Afro-Brasileiro. Por todo Brasil, no dia de Reis, grupos de Reisados e congos apresentam-se, da mesma forma que se apresentavam há séculos passados. Ainda bem.


João Pessoa(PB), 25 de Novembro de 2014.



Ignácio Tavares






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