O Bê-a-bá do Sertão - Paraíba - ELEIÇÃO NA UNIVERSIDADE
Milton Marques Milton Marques Júnior é Professor da Universidade Federal da Paraíba.


31.01.2012 - João Pessoa

ELEIÇÃO NA UNIVERSIDADE

     
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A princípio, não acredito que a combinação universidade e eleição seja uma boa fórmula. Universidade é academia e, como tal, deve preocupar-se com a produção do saber, com o avanço da ciência. Daí, eu defender a existência do pesquisador, envolvido com a pesquisa pura, seja teórica ou experimental, e do professor pesquisador, cujas pesquisas têm como objetivo o melhoramento do ensino, para um compartilhamento mais rápido e efetivo do saber. O saber edifica, como se lê no brasão de nossa Universidade. Infelizmente, parece que ainda não acordamos para isto.



Compartilhar o saber científico pesquisado na universidade é, sem dúvida, uma atitude democrática, sobretudo no caso das Instituições Federais de Ensino, mantidas com o dinheiro público. A democracia, porém, na universidade, deve parar por aí. O mais deve ser por mérito. Os dirigentes universitários deveriam ser escolhidos pelo mérito e pela antiguidade, dentre os funcionários de carreira ou dentre profissionais da administração trazidos de fora da universidade, mas com competência comprovada.


Como se pode ver, estou indo na contramão da prática que se instalou já há alguns anos nas universidades brasileiras, de escolher os seus dirigente, inclusive o reitor, por uma consulta à comunidade acadêmica, com a eleição-consulta tendo se tornado uma eleição-decisão. Sei que muitos acharão que sou retrógrado. Outros, que sou reacionário. Para mim, é irrelevante e não sou obrigado a concordar com as outras pessoas. Mantenho a minha concepção de que o mérito é o único meio viável dentro de uma academia.



Mesmo não concordando com a eleição, tenho procurado votar naqueles candidatos que me parecem o melhor para a nossa Universidade Federal da Paraíba, sempre levando em consta os critérios de produtividade acadêmica e da antiguidade. Como o processo de nova eleição para reitor já se encontra deflagrado desde o segundo semestre do ano passado, gostaria de sugerir algumas ações aos candidatos.


Em primeiro lugar, o reitor deve estar desvinculado da política partidária. Se ele é vinculado a algum partido político, que exerça a política partidária dentro do âmbito do partido e não na universidade. Se há alguma coisa que agride visceralmente a democracia é a política partidária. Em seguida, o reitor deve, uma vez eleito, ter em mente que ele é reitor de toda a universidade, não do grupo que o apoiou, devendo tratar a todos com igualdade que o critério da produtividade acadêmica exige. Não podemos esquecer de que o reitor é um administrador, um gerente, que deve fazer a universidade funcionar e, para tanto, deve cobrar energicamente eficiência daqueles que ele gerencia. Como gerente, ele deve estar na linha de frente e ser o primeiro a propor as decisões que devem ser tomadas. Do relógio eletrônico de ponto à punição de quem não vai dar aula. É óbvio que deve partir dele os embates com o governo federal, no sentido de conseguir mais verbas para o desenvolvimento intelectual da universidade, bem como da sua infra-estrutura.



Duas questões parecem-me, particularmente, relevantes: a reestruturação da Biblioteca Central e da Editora Universitária. No primeiro caso, devemos pensar em uma biblioteca situada em ambiente adequado a guardar e preservar livros. Além de fazer-se necessária a climatização da biblioteca, sujeita a fungos e cupins, tendo em vista a proximidade da mata, faz-se necessária uma reestruturação do serviço prestado pelos que lá trabalham. Em hipótese alguma, o usuário da biblioteca deve ter contato com o acervo. O acesso ao acervo é para os funcionários habilitados a esse serviço, que devem levar até o usuário os livros solicitados. É assim que se procede em qualquer biblioteca que se queira séria.


A situação é mais grave, no que diz respeito à Editora Universitária. É preciso repensar qual é o papel de uma editora universitária. Na minha concepção, a função precípua deve ser para publicar a produção acadêmica. Em havendo espaço e recursos, outros livros que tenham real interesse para a sociedade como um todo. Tão importante quanto a publicação é a distribuição. De que adianta a publicação de uma obra se não existe a sua distribuição para todo o Brasil? O livro mal circulará na Paraíba...



O debate está aberto, outros textos deverão vir e, sinceramente, espero que esta eleição seja diferente, distante do que temos visto nas anteriores: uma imitação para pior das eleições partidárias, lamentável em ambiente que se quer acadêmico. As poucas ações aqui sugeridas são o mínimo que um reitor poderia fazer por sua universidade e ajudarão bastante a mudar o perfil do que se entende por academia. É preciso lembrar sempre e repetir como um mantra: se o saber edifica, a politicagem arruína.



Milton Marques Júnior
Professor da Universidade Federal da Paraíba.





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