O Bê-a-bá do Sertão - Paraíba - PODEMOS FAZER MELHOR
Milton Marques Milton Marques Júnior é Professor da Universidade Federal da Paraíba.


03.04.2012 - João Pessoa

PODEMOS FAZER MELHOR

     
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A melhor maneira de mostrar que a democracia funciona em uma universidade pública é primeiramente garantindo o acesso de professores, funcionários e alunos pelo concurso público, que selecionará os melhores; em segundo lugar, mas não por último, dando o retorno do investimento que a sociedade fez, na forma de profissionais competentes, que ajudarão a sociedade a se desenvolver. Digo isto porque, ao que parece, a universidade está muito preocupada com eleições internas, o que lhe dá uma aparência de democracia, mas que, em muitos dos casos, no máximo, cheira a democratismo.


Uma democracia se constata com atribuição de direitos iguais a seus cidadãos e, sobretudo, com a cobrança de deveres, de modo que a sociedade possa funcionar com cada um sabendo qual é o seu lugar e quais as suas atribuições. Se cada um fizer o que lhe compete e sabe fazer, fará melhor e mais, e toda a sociedade lucra. Quem diz isto é Platão, na República, não eu. Platão, que, por sinal, não via a democracia com bons olhos. Para o filósofo grego, a democracia era o caminho mais curto para a demagogia e esta para a tirania. Alguém tem dúvida disso? De uma coisa, porém, Platão tinha a certeza: não se erige uma sociedade justa com incompetentes.


Digo isto porque o que estou vendo na universidade pública já há alguns anos, e tendendo a piorar, é um sistema de escolha de reitor pela eleição, quando deveria ser pela competência e pela antiguidade, que absorveu o pior que havia da política partidária. Estamos cansados de saber que o sistema político partidário que temos está completamente obsoleto e decrépito. O resultado é o que vemos: políticos acusados constantemente de corrupção, de desvio de verbas, de enriquecimento ilícito, de associação ao crime, numa sociedade que paga mal ao professor e paga mais, muito mais do que devia a político não só corruptos, como, muitas vezes, analfabetos, com o direito de legislar e, portanto, ditar o nosso destino. Por isto, defendo o ex-voto: ou não votamos em corruptos ou podemos retirar o voto dado, se descontente com quem elegemos. Podemos fazer melhor, portanto. Na sociedade como um todo e, no nosso caso específico, na universidade.


Sempre entendi a universidade como o espaço para o desenvolvimento de um saber consistente, sólido, por isso é ensino superior. Um espaço em que se produz ciência e capacita os profissionais para o mercado. Não me venham com a balela de que a universidade educa. Vivemos em uma economia de mercado e temos que produzir profissionais competentes para o desenvolvimento de nossa sociedade; profissionais capazes de produzir novos conhecimentos, a partir da pesquisa científica. A universidade é para isto. O mais é conversa fiada de quem adora fazer fumaça e detesta agir, pois agir dá trabalho. Falar é mais fácil.


Entendendo, portanto, a universidade como o espaço da competência científica, não me conformo de ver os moldes atuais da escolha do reitor: campanhas e comitês eleitorais, que extrapolam os muros da universidade, santinhos, out-doors, decalques, camisetas e, claro, financiamento de campanha. Quem financia? Quais os interesses de quem financia? Até onde sei, os professores doutores candidatos, ganham tanto quanto eu, pois também sou doutor, associado III e um dos mais antigos na universidade. Sinceramente, digo que se meu salário dá para viver, não dá para gastar com campanha eleitoral, nem aluguel de espaço para comitê eleitoral. Não estou dizendo que há ilicitude, mas acredito piamente que o dinheiro não sai apenas do bolso do candidato a reitor. Sei que tem adesões, contribuições, e dinheiro do próprio bolso na campanha. Mas tudo isto é, realmente, necessário? Isto não dá margem a que alguém que contribuiu se ache no direito de ter privilégios posteriores? Insisto: podemos fazer melhor que os políticos tradicionais, até porque não somos políticos, somos professores, produtores de conhecimento.


Uma sugestão, uma vez que pareço pregar no túnel do silêncio, do saudoso Agente 86, e sei que a escolha pela eleição ainda deve perdurar por muito tempo, uma sugestão é que a universidade financiasse a campanha de todos, da maneira mais simples: um jornal distribuído quinzenalmente, com a foto, o currículo e a plataforma de cada candidato, sem direito a mais nada: santinho, out-door, decalque, camiseta, propaganda em carros, etc. A universidade também garantiria o espaço para que houvesse, digamos, três debates entre os candidatos, ao longo da campanha. Assim faríamos melhor do que a viciada política partidária.


Há duas semanas, indignado com a situação da universidade, escrevi um artigo chamado Que Universidade Queremos? e chamei os candidatos a reitor a responder ou a se posicionar. Ninguém o fez. Talvez porque não queiram se comprometer com os estudantes - o artigo falava contra a farra festiva em que a universidade se tornou, nas sextas-feiras à noite -, vez que o escrito, como diziam os latinos, permanece. Falar é mais fácil e o vento leva as palavras. Agora, chamo novamente ao debate e espero ser ouvido. Podemos fazer melhor, sim.





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