O Bê-a-bá do Sertão - Paraíba - POR QUE LEMOS POUCO ?
Milton Marques Milton Marques Júnior é Professor da Universidade Federal da Paraíba.


16.02.2012 - João Pessoa

POR QUE LEMOS POUCO ?

     
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Há uma celeuma grande sobre o baixo nível de leitura no Brasil, em termos quantitativos e, sobretudo, qualitativos. Os clássicos aparecem sempre como um dos culpados, vistos como obras chatas que afastam da leitura o candidato a leitor. É preciso saber que a aquisição do hábito da leitura faz-se de modo lento. Guardando-se as devidas proporções e distâncias temporais, é algo como o processo cumulativo da seleção natural, de que fala Richard Dawkins(O relojoeiro cego, Companhia das Letras, 2001). Reconheço, por exemplo, que Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, não é um texto fácil, e que falta bom senso a quem indica as treze cartas para a leitura por alunos do primeiro ano do segundo grau. Mas, ao menos, a primeira carta poderia ser indicada para estudo, mesmo para o primeiro ano, pois são alunos com uma média de 14 anos. O problema não são as Cartas em si ou qualquer outro texto de qualidade, por isto mesmo de leitura difícil, que precisa ser digerida lentamente. O problema é como esses textos são abordados pelos professores. É necessário lembrar sempre que a escola é o lugar onde se deve aprofundar a linguagem e isto se faz a partir de textos literários. A literatura é o nível mais elevado que uma língua pode alcançar. Os clássicos lidos com o professor são outra coisa. Principalmente, quando o professor prepara a sua aula, tem o domínio do texto a explicar e apresenta o dicionário a si mesmo e a seus alunos. No geral, a maior dificuldade é com o nível rasteiro de língua que muitos dos alunos e alguns professores têm. O fato de eu ser brasileiro não significa que eu saiba falar bem o português, quando a situação exigir uma expressão linguística mais formal e mais escorreita. Pois é... É na escola que se apresenta a oportunidade para se estabelecer a diferença entre saber falar a língua e poder se comunicar. Por outro lado, embora a leitura dos bons autores não deva estar atrelada ao vestibular, é inconcebível que se liste uma grande quantidade de livros e se cobrem questões envolvendo quadrinhos e tirinhas... Uma coisa é certa: precisamos refletir mais sobre o papel da escola, dos professores e dos alunos.


Se refletirmos bem, veremos que o brasileiro não lê pouco porque os alunos são obrigados a ler os clássicos do século XIX ou de séculos anteriores e eles são chatos. Isto é uma argumentação frágil e parte de quem não conhece livro, não conhece o nosso sistema de ensino e o nosso mercado editorial. Brasileiro lê pouco por vários outros motivos. Por exemplo: 1) A escola é ruim, tanto a pública quanto a privada. Quantas escolas têm bibliotecas? Atenção, biblioteca não é um amontoado de livros! 2) Não se cobra leitura dos alunos. 3) Dificilmente, os professores leem com os alunos. 4) Poucos alunos não dispõem de dicionários em casa e os que dispõem, poucos são os que os utilizam. 5) É mais provável o hábito da leitura ser adquirido em casa. Mas pais leitores não é garantia de filhos leitores, é apenas uma boa possibilidade, não é teleológico. Abstraindo quem não tem posses, perguntamos quantos pais têm biblioteca em casa? Dos que têm biblioteca, quantos lêem com frequência? Dos que lêem com frequência, quantos filhos são influenciados pelo ato de leitura dos pais? Ora, é a escola que tem a obrigação de ratificar o hábito de leitura começado em casa ou iniciar este hábito com um programa obrigatório de leituras. Já que estamos falando de bilbioteca em casa, façamos a inquietante pergunta: quantas bilbiotecas públicas existem? Das que existem, quantas são frequentadas? 6) O nosso mercado editorial é ruim e, via de regra, só publica porcaria. Alguém procure em qualquer livraria, a melhor que existe no Brasil, digamos, a Livraria Cultura ou a Saraiva, e não encotrará todos os clássicos da Literatura Brasileira. Quando encontra é um ou outro volume. 6) Os livros são caros e não se produzem obras baratas, com qualidade. Poderíamos elencar mil motivos, mas diremos só mais uma: na Europa, as obras essenciais da literatura do país e as mais importantes da literatura universal estão disponibilizadas em várias edições, da mais barata à mais cara, para o leigo, que só quer passar o tempo na viagem de metrô; para o estudante, que precisa de obras comentadas e de referências (professores brasileiros detestam produzir obras de referência; eles ficam sempre à espera de produzir O Livro, não um livro que sirva para a sala de aula); para o professor com comentários e estudos especializados. Só a título de exemplo, que nos faz chorar de inveja, encontramos numa livraria da Estação Termini, em Roma, todos os clássicos gregos e latinos, em edições bilíngues, a preços módicos. Uma livraria de estação de trem. Sem falar nas dezenas de livrarias que existem em Roma, sempre cheias. É um exemplo, entre mil na Europa.


Enfim, se continuarmos a ver a escola como um espaço e um tempo em que os estudantes existem para não sofrer pressão e onde qualquer atitude de cobrança de responsabilidade é vista como constrangimento à "criança" e ao "adolescente", com a anuência irrestrita da família, então caminharemos para o vazio. À beira do precipício já estamos.






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