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Waldeban Medeiros

Simplesmente um contador de "causos"... Escritor e psicólogo. Auditor Fiscal Estadual aposentado, tendo exercido o cargo de Coletor Estadual na cidade de Sousa nos anos 90/94, com título de cidadão sousense pela sua militância no futebol da cidade “sorriso”, tendo sido um dos fundadores da Liga Sousense de Futebol.

28.11.2011 - João Pessoa(PB)

COR DE BURRO QUANDO FOGE !


Continuando com a tentativa de explicar a origem dos ditos populares, máximas do povo, provérbios populares, ou qualquer nomenclatura que se dê às exclamações que correm boca a boca entre as pessoas, me chegou à mente um propagado dito que tenta explicar o medo que alguém sente de uma situação que lhe parece adversa.

Trata-se do famoso dito “fulano está com cor de burro quando foge”!.

Cor de burro quando foge? Ora, burro quando foge não muda de cor!.

Tenha santa paciência, quem muda de cor é a pessoa que está fugindo do burro, principalmente quando o quadrúpede é um burro brabo, mal amansado, machão daqueles que quando vê uma égua em cio sai correndo em busca da dita cuja, esbravejado, sem controle, sem domínio de quem quer que seja, ou seja, do dono ou de quem dele cuida.


O dito chegou ao povo deturpado dessa maneira a partir da história do “Zé do Galo”, apelidio do José de Ribamar lá da Ramada, por ser um grande adepto do famigerado e sanguinário esporte chamado “briga de galo”. “Zé do Galo” ganhava o sustento da família nas rinhas da vida, ganhando apostas e mais apostas, tendo ao seu lado o até então invencível “Três Dedos”, nome dado a um dos seus galos de estimação, famoso na redondeza pela pervercidade com que abatia seus antagonistas, com os afiados golpes dos seus três únicos dedos de um dos seus ciscadores, gostosa parte dos galináceos quando servido ao molho de cabidela!.


Enquanto ganhavam respeito e temor perantes os adversários com essa atividade, “Zé do Galo”, o homem e “Três Dedos”, o galo, proporcionalmente, colecionavam inimigos de todas as formas. De um lado, estava um ousado apostador que fazia suas altas apostas sempre na certeza de sempre ganhar, do outro estava o galo que, movido simplesmente pelo instinto, se sentia um imbatível gladiador, uma máquina de trucidar seus adversários, sem a mínima pena, mesmo que esta signficasse a perda do revestimento da sua pele, como ave que era.


A fama dos dois perdurou por exatos cinco anos quando, vindo não se sabe de onde, aportou na rinha da rua do Frejo, local frequentado por tudo quanto era escória do município, um tal de “Mané Cobra Cega”, portador de um tapa olho, produto de uma briga de faca que lhe custou um dos olhos. O cara, meio desengonçado nos seus modos de agir, se dizia possuidor de um galo altamente qualificado, capa de derrotar todo e qualquer galo que tivesse a coragem de enfrentá-lo. Além do mais, ele era movido por altas apostas, a única forma de demonstrar a habilidade do seu animal.


A notícia logo se espalhou, chegando ao conhecimento de “Zé do Galo”. Cabreiro, ele procurou saber o paradeiro do visitante e conhecer as manhas do galo desafiante e viu que o seu galo ganhava em centenas de quilômetros do futuro desafiante,tanto no porte quanto na galhardia, pois o galo do “Mané Cobra Cega” não era lá essas coisas todas.


Em cidade pequena tem sempre aquelas pessoas que se destacam no mister de “levar e trazer”. São os fofoqueiros de plantão, habéis em prestar informações tanto para um lado, quanto para o outro, e assim vão levando suas vidas na certeza de que estão sendo úteis à coletividade.


Um deles chegou para o “Zé do Galo” e cochichou:

- O cara tem dinheiro e o galo é mixuruca! É moleza, “Três Dedos” é o melhor! Pode apostar tudo que você ganha!.


O outro, em segredinhos, falou para o “Olho de Pirata”:

- Nem se preocupe, pode ir para a aposta mais alta possível que a vitória é como certa. O galo dele está cansado de lutas e mais lutas diárias! Vai ser moleza!.


Roda conversa pra cá, roda papo pra lá, o certo é que marcaram um duelo entre os galos, com a condição de que teriam de apostar tudo que tivessem, fosse em dinheiro vivo, fosse em propriedades. Coisa de louco, logo topada pelos dois. Convocaram o delegado da cidade, o juiz da comarca, o padre da freguesia e o coletor da região para servirem de testemunhas e marcaram o dia da briga de galo que iria por um fim a todas as brigas de galo daquele município.


O grande dia chegou e “Zé do Galo” já contava vantagem junto aos seus afirmando que a partir daquele momento seria o sujeito mais rico da região, já que a vitória do seu galo contra o “frango” do adversário já estava no papo.


Trinado o apito, a briga começou com “Três Dedos” dando uma volta completa no ar, acertou em cheio o papo do adversário, deixando exposto na rinha alguns caroços de milho!.

- O frango do “Olho de Pirata” depois da patada qui sofreu inchou feito cururu quando se joga sal, partiu pra riba de “Três Dedos”, deu-lhe uma esporada calculada por debaixo do pescoço que o jogou fora da rinha! “Zé do Galo” já pressente a derrota. Ele já começou a ficar branco, verde, azul, encarnado, roxo! É a cópia fiel da cor de quem de burro foge! – narrou o Doda, “juiz” da luta!.


No dia seguinte, toda a cidade comentava:

- “Zé do Galo” perde aposta e fica com a cor de burro quando foge!.


Pronto, estava criado mais dito popular por força da interpretação equivocada do povo!.






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*O texto acima serve para seu entretenimento. As opiniões expressadas neste são de responsabilidade exclusiva dos autores e não representam, necessariamente, as opiniões do portal O bê-á-bá do Sertão ou de qualquer afiliado ou funcionário.






 

  do colaborador 

 
 

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